3. Manejo de Pragas com o uso do milho YieldGard®

Dentre os fatores que podem comprometer o rendimento e a qualidade da produção de grãos de milho, a incidência de insetos-pragas tem potencial para causar prejuízos à lavoura e com importante impacto econômico.

O milho YieldGard® caracteriza-se pela expressão da proteína Cry1Ab em seu tecido, durante todo o ciclo da cultura. A expressão contínua da proteína Cry1Ab nos tecidos da planta é uma importante característica desta tecnologia, uma vez que múltiplas gerações de pragas infestam o milho em distintos estádios fenológicos da cultura. Conforme mencionado anteriormente, a lagarta, ao ingerir esta proteína, tem seu tubo digestivo afetado, ocorrendo a indução de ruptura das membranas do sistema gástrico do inseto, fazendo com que ele pare de se alimentar e morra em pouco tempo. No milho YieldGard® a proteína Cry1Ab controla pragas como a D. saccharalis, e, com diferentes níveis de supressão, também a H. zea e S. frugiperda. As espécies do gênero Spodoptera são constitutivamente menos suscetíveis às proteínas Cry1Ab e Cry1Ac (MACINTOSH at al., 1990; SIVASUPRAMANIAM et al. 2007).

Atualmente, a praga mais importante no milho no Brasil é a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) que, em condições climáticas favoráveis, aumenta sua população, consumindo estruturas da planta e comprometendo a produção de grãos (PENCOE & MARTIN, 1981, PINTO et al., 2004). Após a eclosão, as lagartas iniciam o processo de alimentação raspando as folhas jovens do milho. Com o crescimento da lagarta, há maior consumo foliar, portanto ocorre maior injúria nas folhas (destruição do cartucho). Nos últimos anos tem sido comum observar S. frugiperda cortando plântulas e também infestando partes reprodutivas da planta (pendão e espiga) (PINTO et al., 2004). As perdas são variáveis, podendo chegar a 40% (CARVALHO, 1970; CRUZ & TURPIN, 1982; CARNEVALLI & FLORCOVSKI, 1995; CRUZ et al., 1999). Segundo CRUZ et al. (1999) as perdas estimadas em função das infestações de S. frugiperda no Brasil eram, na época, da ordem de 400 milhões de dólares por ano.

Além de S. frugiperda, mais duas espécies de lepidópteros-praga são comumente encontradas na cultura do milho: a lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea) e a broca-do-colmo (Diatraea saccharalis). A lagarta-da-espiga oviposita nos estilo-estigmas das plantas de milho. As lagartas recém-eclodidas iniciam a alimentação nos estilo-estigmas podendo ocasionar falhas na produção de grãos nas espigas. À medida que as lagartas se desenvolvem dirigem-se para o interior das espigas, e naquele local se alimentam dos grãos ainda em fase de formação. O orifício de saída construído pela lagarta permite o aparecimento de doenças nas espigas, causando podridões (PINTO et al., 2004) Os prejuízos provocados pelo ataque deste inseto são estimados em 8% dos rendimentos (CRUZ et al., 2006).

As lagartas de D. saccharalis, por sua vez, após a eclosão, alimentam-se das folhas e se dispersam em direção às bainhas. Elas penetram no colmo, abrindo galerias de baixo para cima, onde completam o seu desenvolvimento (VENDRAMIM, 1988; PINTO et al., 2004). Na cultura do milho, o ataque de D. saccharalis também é caracterizado por danos diretos e indiretos. Os danos diretos podem ser observados no quebramento de colmos devido a injúria causada pela broca, e também em falhas no enchimento de grãos devido ao ataque nas espigas. Os danos indiretos se relacionam à infecção dos colmos e espigas de milho por microorganismos e à menor translocação de água e nutrientes. Na ocorrência de ataques intensos, as plantas podem secar precocemente se tornando improdutivas. Quando a infestação ocorre na fase de espiga, esta pode aparecer com furo na base, ou com grãos danificados e sabugo perfurado. A broca-do-colmo pode causar perdas de até 21% na produção. (CRUZ et al., 2006).

O controle da lagarta-do-cartucho S. frugiperda é normalmente feito com inseticidas, os quais nem sempre são eficientes. Esta medida é dificultada pelo hábito da praga, que, permanecendo dentro do cartucho das plantas, dificulta o contato com os inseticidas. Além disso, com a aplicação de defensivos agrícolas, ocorre a redução de inimigos naturais, principalmente por produtos de amplo espectro, favorecendo a ressurgência da lagarta (GASSEN, 1996). Portanto, é desejável a associação de táticas de controle de pragas, visando aspectos econômicos, porém, sobretudo, poupando o meio ambiente de impactos negativos à flora e à fauna.

Há pragas cujo controle por métodos convencionais é dificultado devido ao comportamento biológico das mesmas. S. frugiperda tem por hábito estar presente no interior do “cartucho do milho”, o que dificulta o seu controle por meio de uso inseticidas químicos. Uma vez que a proteína Cry1Ab está presente em todas as partes da planta de milho YieldGard®, as lagartas alvo da ação de Cry1Ab ao se alimentarem são afetadas pela proteína, conforme apresentado anteriormente. A eficiência do milho YieldGard® no controle da lagarta-do-cartucho foi avaliada por FERNANDES (2003), em diferentes estádios de desenvolvimento de S. frugiperda. As folhas do cartucho do milho YieldGard® foram raspadas, enquanto no milho convencional ocorreu um nível de injúria (raspagem e furos nas folhas) significativamente maior (Figura 1).

Os dados referentes à injúria de S. frugiperda no cartucho do milho, obtidos pelo Departamento de Desenvolvimento Tecnológico da Monsanto do Brasil Ltda. (dados não publicados) na safra 2006/2007 (Figura 2), corroborram os resultados acima. No milho YieldGard® , há maior concentração da freqüência para as notas 0 a 3 (folhas raspadas), tendo ocorrido também algumas plantas com cartucho apresentando notas acima de 4 (Figura 2). No milho convencional com aplicação de inseticidas, houve maior distribuição das notas, inclusive com notas maiores que 5 (folhas com raspagem e furos), demonstrando menor eficiência no controle pelo inseticida (Figura 2). A Figura 2, por sua vez, mostra que a praga ocorreu em moderada a alta infestação, um novo padrão de distribuição na freqüência das notas, com a presença de plantas com o cartucho severamente comprometido. Portanto, em regiões com alta infestação de S. frugiperda, quando da adoção do milho YieldGard® , é possível que haja necessidade de uso de inseticidas como medida adicional de controle dessa praga. Assim recomenda-se o uso de inseticida, quando o monitoramento da lavoura indicar 20% de plantas com “cartucho” apresentando injúrias da lagarta-do-cartucho,; ou seja, até “nota 4”, conforme indicado na Figura 3. Neste momento, caso o agricultor não adote o controle com inseticidas, podem ocorrer injúrias severas nas plantas e conseqüentemente dano ecônomico na lavoura. Assim, a adoção de Programas de Manejo Integrado de Pragas (MIP) (PEDIGO, 1989) para o manejo da S. frugiperda mesmo no milho YieldGard® é de fundamental importância para o controle eficiente dessa praga na cultura.

Figura 1. Eficiência do milho YieldGard® (A) no controle da lagarta do cartucho (Spodoptera frugiperda), comparativamente ao milho convencional (B).

Figura 2. Freqüência de injúria (0 – 9) no cartucho do milhoYieldGard®. Safra 2006/2007.

Figura 3. Injúria da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) no “cartucho do milho”.

Na escala de injúria de 0-9, a foto corresponde de nota 4

O milho YieldGard® controla a broca-do-colmo (D. saccharalis) e causa uma supressão no desenvolvimento da lagarta-da-espiga (H. zea). A lagarta-da-espiga e a broca-do-colmo, ao iniciarem o processo de alimentação nos estilo-estigmas e folha/bainha, respectivamente, ingerem a proteína Cry1Ab, presente no tecido vegetal do milho YieldGard®. As espigas no milho YieldGard® apresentam melhor qualidade de grãos (Figura 4), pois a lagarta é controlada na fase inicial, na ponta da espiga. Assim, os grãos são poupados do dano direto, bem como da ação de patógenos oportunistas. A proteção do colmo do ataque de D. saccharalis faz com que a planta tenha melhor qualidade de colmo, comparativamente ao milho convencional. Desta forma, a planta pode ser mais eficiente na condução de água e nutrientes da base para as folhas, permitindo-se assim, a melhor expressão do potencial produtivo do híbrido (Figura 5).

O milho YieldGard® não tem efeito sobre outros insetos pragas, como por exemplo, larva-alfinete, percevejo, cigarrinha, tripes, pulgão, etc. Conforme mencionado anteriormente, sob alta infestação da lagarta-do-cartucho, é possível que ocorra a necessidade de medida complementar de controle. Assim como preconizado nos princípios de MIP, recomenda-se a adoção de práticas de monitoramento sistemático da lavoura, de forma a detectar necessidade de controle complementar ou adicional, para assim manter populações de pragas abaixo do nível de dano econômico (Figura 6). As medidas de controle adicional, como a aplicação de inseticidas, devem ser implementadas logo após a deteçao da ocorrência do nível de ação. É importante reforçar que toda e qualquer medida de controle deve seguir as respectivas recomendações técnicas. Ressalta-se ainda que o monitoramento da cultura é igualmente importante para a tomada de decisão quanto ao manejo de plantas daninhas e doenças.

Os resultados experimentais mostram que, devido ao melhor manejo das pragas-alvo (broca-do-colmo, lagarta-da-espiga e lagarta-do-cartucho), a produtividade obtida a partir do uso do milho YieldGard® no Brasil é, em média, 10,3% superior ao milho convencional com uso de inseticidas (Figura 7)

Figura 4. Eficiência do milho YieldGard® no controle da lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea) (A), comparativamente ao milho convencional (B).

Figura 5. Eficiência do milho YieldGard® no controle da broca-do-colmo (Diatraea saccharalis) (A), comparativamente ao milho convencional (B).

Figura 6. Manejo de pragas na cultura do milho com a tecnologia YieldGard®.

Figura 7. Produtividade relativa do milho YieldGard®, comparativamente ao milho convencional.

O milho YieldGard® adequa-se aos princípios de Manejo Integrado de Pragas (MIP). Conforme visto anteriormente, o milho YieldGard® não apresenta efeitos adversos a organismos não-alvo. Aliado à possibilidade de redução do uso de inseticidas, pela característica de resistência a alguns lepidópteros pragas introduzida no milho, há a possibilidade da manutenção de agentes de controle biológico natural, o que significa, na prática, aliar estratégias de controle de pragas (resistência de plantas e inimigos naturais), bem como um benefício ambiental e social, visto a diminuição de risco de contaminação por exposição a produtos químicos.