5. Segurança alimentar do milho YieldGard® (MON 810)
A avaliação nutricional faz parte das avaliações de segurança de uma cultura geneticamente modificada, de forma a determinar os seus efeitos sobre a saúde animal e sobre a qualidade dos produtos utilizados na alimentação humana (FLACHOWSKY et al., 2005). Os resultados dos inúmeros estudos realizados até o momento têm reafirmado a ausência de diferenças significativas na segurança e no valor nutricional das rações contendo produtos derivados de plantas geneticamente modificadas que são utilizadas para alimentação animal, quando comparadas às contra-partes convencionais. Adicionalmente, resíduos do DNA e das proteínas exógenas não foram encontrados em órgãos e tecidos coletados de animais alimentados com ração ou partes de vegetal derivados de plantas geneticamente modificadas.
É importante lembrar que as proteínas Cry produzidas pelo Bacillus thuringiensis já foram extensivamente testadas e apresentam um histórico de uso seguro de mais de 40 anos (MCCLINTOCK et al., 1995). Coletivamente, esses estudos com as proteínas Cry demonstraram a ausência de toxicidade dérmica e oral (aguda, subcrônica ou crônica) associadas com pesticidas microbianos, incluindo as formulações comerciais que contêm a proteína Cry1Ab. Na publicação de Joung e Côté (2000) há um resumo dos estudos de laboratório para avaliação da toxicidade do Bt subsp. kurstaki em peixes, aves e mamíferos, demonstrando a ausência de efeitos das proteínas Cry sobre esses animais (Tabela 1).
A determinação da equivalência substancial é um componente importante da avaliação de segurança alimentar (ORGANISATION FOR ECONOMIC COOPERATION AND DEVELOPMENT, 1993; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1995; CUSTERS, 2001). Análises de composição demonstraram que o milho YieldGard® é substancialmente equivalente a outras variedades de milho convencional. Tais análises foram conduzidas com amostras de grãos colhidos dos ensaios de campo nos Estados Unidos em 1994, e de forragem e grãos colhidos na União Européia em 1995 (SANDERS et al., 1998), e avaliaram: bromatologia (proteínas, gorduras, cinza, fibras cruas, fibras em detergentes neutros, fibras em detergentes ácidos e umidade); aminoácidos; ácidos graxos; cálcio; fósforo; tocoferol (vitamina E); e carboidratos. As amostras de forragem foram analisadas bromatologicamente (proteínas, gorduras, cinza, fibras cruas, fibras em detergentes neutros, fibras em detergentes ácidos e umidade). Esses dados de composição de grãos e forragem confirmaram que o milho YieldGard® é substancialmente equivalente ao seu parental, bem como aos híbridos de milho convencional. Adicionalmente, o processamento dos grãos e forragem não altera a composição do milho YieldGard® e, portanto, os produtos derivados desse milho também são substancialmente equivalentes e tão seguros quanto os produtos processados do milho convencional.
Um estudo recente realizado em hospital e clínica privada na União Européia monitorou os efeitos de alergenicidade de cinco eventos geneticamente modificados, dentre eles o milho YieldGard®, em populações humanas potencialmente sensíveis (BATISTA et al., 2005). Testes cutâneos por punctura com extratos preparados de amostras de milho geneticamente modificado (4 eventos expressando a proteína Cry1Ab) e com os controles convencionais foram realizados com dois grupos de indivíduos sensíveis (crianças com histórico de alergia inalatória e alimentar; e indivíduos com rinite asmática). Os resultados demonstraram que os eventos de milho geneticamente modificado testados, entre eles o milho YieldGard®, são seguros quanto ao potencial de alergenicidade a humanos.
Um estudo de longa-duração (90 dias) de segurança alimentar do milho YieldGard® com ratos foi realizado por Hammond et al. (2006). Os 400 ratos (divididos em 10 grupos de 20 ratos/sexo/grupo) foram alimentados com grãos do milho YieldGard® e do controle convencional. Esse estudo não detectou efeitos indesejáveis advindos da alimentação com grãos de milho YieldGard® e complementa os estudos agronômicos, de composição e nutricionais com grãos desse milho geneticamente modificado, confirmando sua segurança e qualidade nutricional na comparação com o milho convencional.
Um estudo realizado na Rússia (CHIBURAEV et al., 2002) demonstrou que a administração de milho YieldGard® a ratos Wistar de seis meses de idade não causou efeitos adversos no conteúdo de produtos da peroxidação de lipídeos ou na atividade enzimática do sistema antioxidante em eritrócitos, plasma sangüíneo ou fígado. Diferenças significativas também não foram encontradas quando os resultados obtidos com o milho YieldGard® foram comparados aos resultados com o milho convencional. Em 2001, um outro estudo realizado na Rússia fez uma avaliação médica e biológica da toxicologia e bioquímica do milho YieldGard® (TUTE’IAN et al., 2001). As avaliações foram conduzidas para determinar se havia influência do tipo de alimentação sobre vários processos enzimáticos e metabólicos em ratos Wistar. As análises indicaram que a dieta contendo o milho YieldGard® não provoca alterações na função do aparato lisossomal do fígado. Como este foi um estudo de longa duração, pôde-se concluir que dietas contendo o milho YieldGard® não alteram a estrutura das membranas das células do fígado nem os sistemas enzimáticos que conduzem a biotransformação de corpos estranhos dentro do organismo.
Um estudo com duração de 14 dias de avaliação nutricional comparativa do milho YieldGard® com sua contra-parte convencional e três híbridos comerciais (C1, C2 e C3) utilizados como alimento para frangos foi realizada (GAINES et al., 2001). Concluiu-se que o milho YieldGard® foi nutricionalmente equivalente à sua contra-parte convencional em dietas fornecidas às aves. Entretanto, pequenas diferenças foram observadas entre os três híbridos comerciais avaliados. Tentativas para detectar o gene cry1Ab e a proteína Cry1Ab em músculo de frangos alimentados com o milho YieldGard® foram conduzidas utilizando metodologia de alta sensibilidade (JENNINGS et al., 2003), com capacidade para detectar pelo menos 1 pg de DNA genômico purificado de milho contendo o gene cry1Ab. Entretanto, esse estudo evidenciou a ausência de níveis detectáveis de DNA recombinante e da proteína por ele codificada, o que corrobora resultados sobre a rápida e eficiente degradação de macromoléculas como a proteína Cry1Ab no trato digestivo de animais vertebrados.
Sanden et al. (2006) avaliaram quatro híbridos de milho (dois convencionais e dois YieldGard®) e também duas cultivares de soja (uma convencional e uma Roundup Ready®) na alimentação de peixes da espécie Salmo salar. Os tratamentos consistiram de dietas formuladas para esta espécie de salmão durante os oito primeiros meses de alimentação, e os parâmetros avaliados foram: desenvolvimento, mortalidade, índices orgânicos, composição corporal, concentrações de nutrientes no plasma e atividades enzimáticas. Demonstrou-se que a inclusão do milho YieldGard® como ingrediente da dieta promove um desenvolvimento normal desses peixes não acarretando risco adicional à saúde deles. Um estudo complementar examinou o trato intestinal da mesma espécie de salmão alimentada com diferentes dietas, entre elas dietas contendo o milho YieldGard® e sua contra-parte convencional (SANDEN et al., 2005). Os resultados mostraram que dietas contendo ingredientes como o milho YieldGard®, em uma quantidade de até 12% da dieta total, foram tão seguras quanto aquelas com plantas convencionais no que diz respeito aos efeitos sobre o trato intestinal, considerando índices e parâmetros histológicos.
Os efeitos do milho YieldGard® sobre a composição nutritiva da dieta, ingestão de matéria seca, produção e composição do leite e alterações do peso vivo e das condições corporais dos animais foram avaliados em vacas leiteiras (CALSAMIGLIA et al., 2004). Os resultados demonstraram que o gene cry1Ab e a expressão da proteína Cry1Ab não causam efeitos na composição química, no valor nutritivo e nas respostas de produção de leite em vacas leiteiras. Fragmentos do gene cry1Ab ou resíduos da proteína Cry1Ab não foram detectados nas análises realizadas com carne e leite, corroborando outros estudos que demonstram a segurança alimentar do milho YieldGard® utilizado como ração animal.
Um aspecto importante na segurança alimentar do milho é a ocorrência de fumosinas, que contaminam com freqüência os grãos e são nocivas à saúde humana e animal quando a dieta predominante é composta de produtos à base de milho (COUNCIL FOR AGRICULTURAL SCIENCES AND TECHNOLOGY, 2003; CLEMENTS et al., 2003; MARASAS et al., 2004). O acúmulo de fumosina nos grãos de milho é influenciado por fatores bióticos e abióticos, e os danos causados por insetos são fator importante na maior contaminação dos grãos pelos fungos que produzem essa micotoxina. Como o milho YieldGard® é resistente a insetos, o nível dos danos à planta e aos grãos diminui drasticamente ocorrendo menor ataque pelos fungos e também menor chance de contaminação dos grãos. O potencial para a redução de micotoxinas em grãos de milho resistente a insetos tem sido estudado e é um benefício indireto bastante importante da tecnologia, principalmente para populações têm o milho como principal componente da dieta, e para criadores de animais que consomem ração composta de milho. Na Argentina, onde as condições ambientais entre 2000 e 2002 foram mais favoráveis ao acúmulo de fumosinas, as concentrações foram em média 40% menores no milho YieldGard® que no milho convencional. Hammond et al. (2002) monitoraram a concentração de fumosina em grãos de milho coletados de híbridos com a Tecnologia YieldGard® em 107 localidades dos Estados Unidos entre 2000 e 2002. Os resultados mostraram que o milho YieldGard® pode aumentar a quantidade de milho adequada ao consumo humano e animal, pois apresenta menor chance de contaminação por micotoxinas como as fumosinas. O desenvolvimento do Fusarium e o conteúdo de micotoxina deste fungo em milho convencional e YieldGard® foram avaliados em experimentos conduzidos na França e na Espanha (BAKAN et al., 2002). Esse estudo também mostrou que o uso do milho YieldGard® é uma estratégia para a redução de contaminação por Fusarium e diminuição da concentração de fumosinas no milho produzido na França e na Espanha.
No que se refere à segurança alimentar, o milho YieldGard® é considerado substancialmente equivalente ao milho convencional nos seus componentes nutricionais e tem se mostrado seguro para o uso na alimentação animal e humana, sem que efeitos adversos tenham sido detectados desde a sua liberação comercial nos Estados Unidos em 1995.